Rating: 2.9/5 (40 votos)

ONLINE
1
Partilhe esta Página

 

super bowl 2021

Adão e Eva para Adultos
Adão e Eva para Adultos

 

1- COMO O NOVO TESTAMENTO LÊ O ANTIGO TESTAMENTO

 

Quando alguém começa a estudar teologia, logo percebe uma diferença entre aquilo que aprende nos estudos e o que costuma ouvir em homilias. Surge então a pergunta: por que a teologia parece tão diferente da homilia?

Um ponto fundamental é entender que a Bíblia não é um livro único, mas uma biblioteca de livros. O próprio nome já indica isso: “Bíblia” significa “livrinhos”. São 73 obras reunidas, escritas em épocas diferentes, por autores distintos, com pensamentos muitas vezes divergentes. Portanto, não se pode ler a Bíblia como se fosse uma obra homogênea.

Dentro dessa biblioteca, há uma divisão importante: o Antigo Testamento, com 46 livros, e o Novo Testamento, com 27. São como duas estantes diferentes, com contextos e linguagens próprias. Os livros não falam todos a mesma coisa, nem dentro de cada estante, muito menos entre uma e outra.

Quando passamos do Antigo para o Novo Testamento, a discrepância é ainda maior. Por isso, quem estuda teologia precisa ter claro que não está diante de um único livro, mas de uma coleção de textos que dialogam entre si de formas variadas. O Novo Testamento lê o Antigo, cita trechos dele, mas não se preocupa em manter o sentido histórico original. O objetivo é reinterpretar o Antigo à luz de Cristo, fazendo dele a chave de leitura das Escrituras.

Assim, a teologia busca compreender esse processo de releitura e contextualização, enquanto a homilia procura aplicar diretamente a mensagem de fé ao Cristo vivo e à vida da comunidade.

Você tem uma coleção de livros dividida em duas estantes: Antigo e Novo Testamento. Nosso interesse é entender como o Novo Testamento lê o Antigo. O Antigo Testamento foi escrito primeiro, e os autores do Novo Testamento leram alguns de seus textos e também os citaram. A questão é: de que forma eles leram, qual método usaram e como aplicaram esses textos.

Compreender como os autores do Novo Testamento usaram o Antigo nos ensina muito. Primeiro, nos ajuda a aprender como ler a Bíblia hoje e como interpretar os textos do Antigo Testamento. Também nos mostra a diferença entre teologia e homilia.

Para ilustrar, podemos observar quatro exemplos: João Evangelista, Mateus, Jesus e Felipe. João, nos primeiros versículos do seu Evangelho, baseou-se em textos do Antigo Testamento, especialmente nos livros da Sabedoria e de Baruc. Ele pegou ideias desses livros e aplicou ao seu Evangelho.

Em João 1,1 lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. No versículo 3: “Tudo foi feito por meio dele”. No versículo 4: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”. Essas ideias João tirou do livro da Sabedoria, que dizia que a sabedoria estava junto de Deus, era autora do mundo e era luz.

Em João 1,14 encontramos: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. No livro de Baruc 3,38 está escrito: “A sabedoria apareceu sobre a terra e habitou entre os homens”. João pega o que o Antigo Testamento aplicava à Torá, à Lei de Moisés, e aplica a Jesus. Ele mostra que a verdadeira Palavra, a verdadeira Sabedoria, não é a Lei, mas Cristo. Assim, vemos que o Novo Testamento lê o Antigo reinterpretando-o e aplicando tudo a Jesus, que é o centro da fé cristã.

O livro de Baruc 3,38 afirma que a sabedoria apareceu sobre a terra e habitou entre os homens. João, ao escrever seu Evangelho, retoma essa ideia e aplica a Jesus. No Antigo Testamento, tanto o livro da Sabedoria quanto o de Baruc falavam da sabedoria como autora do mundo, íntima de Deus, presente junto d’Ele e habitando entre os homens. Essa sabedoria, no contexto judaico, era identificada com a Torá, a Lei de Moisés.

João, porém, faz uma releitura: aquilo que antes se aplicava à Torá, ele aplica a Cristo. O verdadeiro Verbo, a verdadeira Palavra, a verdadeira Sabedoria que veio morar entre nós não é a Lei, mas Jesus. Assim, João mostra que a plenitude da revelação não está na Torá, mas em Cristo.

Mateus segue o mesmo caminho ao citar Isaías 40,3. Isaías falava do retorno do povo do exílio da Babilônia, mas Mateus aplica esse texto a João Batista, como aquele que prepara o caminho do Senhor.

Jesus também faz essa releitura. Jesus foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. Levantou-se para fazer a leitura e lhe entregaram o livro do profeta Isaías (Is 61,1-2). Ao abri-lo, encontrou o trecho que dizia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, a recuperação da vista aos cegos, para restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor” (4,18-19).

Depois de ler, Jesus fechou o livro, entregou-o ao servente e sentou-se. Todos na sinagoga o olhavam atentamente. Então Ele declarou: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que vocês acabaram de ouvir”.

Esse texto de Isaías, no seu contexto original, falava da missão do próprio profeta. Isaías afirmava que o Espírito do Senhor estava sobre ele para anunciar a libertação e a esperança ao povo. Jesus, porém, aplica esse texto a si mesmo, mostrando que nele se realiza plenamente aquilo que Isaías havia anunciado.

Assim, vemos que João aplicou à Jesus o que antes se dizia da Torá; Mateus aplicou a João Batista um texto que falava do retorno da Babilônia; e Jesus aplicou a si mesmo um texto que falava da missão de Isaías. Mais tarde, Felipe faria o mesmo ao aplicar a Cristo um texto de Isaías sobre o servo sofredor.

O Novo Testamento, portanto, lê o Antigo sempre com o olhar voltado para Cristo. O Antigo falava das realidades de sua época, mas o Novo o relê e o aplica a Jesus, que é o centro da fé e da interpretação cristã.

Durante a explicação, surgiram algumas dúvidas. Alguém comentou que a base da teologia seria um estudo catequético e que a homilia anda junto com a evangelização. Foi esclarecido que homilia e catequese não são a mesma coisa, e que teologia é algo distinto.

Outra questão levantada foi sobre Isaías: se ele se referia a Deus ou ao rei. A resposta é que Isaías falava de Deus. O que acontece é que o Novo Testamento pega textos do Antigo e os aplica a Cristo.

Seguindo a reflexão, Paulo em 2 Coríntios chama as Escrituras antigas de “Antigo Testamento”. Os judeus nunca usaram esse termo, chamam suas Escrituras de Tanakh. Paulo afirma que, até hoje, quando os judeus leem o Antigo Testamento, um véu permanece, pois só em Cristo esse véu desaparece. Ou seja, é em Cristo que se compreende plenamente as Escrituras.

Jesus também cita o Antigo Testamento e o corrige. Em Mateus 5,21-22, Ele diz: “Ouviste que foi dito aos antigos: não matarás. Eu, porém, vos digo…”. Isso mostra que o Antigo Testamento era provisório e que a plenitude está no ensinamento de Jesus.

Na história da Igreja, houve uma discussão sobre o valor do Antigo Testamento. Marcião, nascido em 85, defendia que o Antigo Testamento deveria ser descartado, pois não cria no que os cristãos crêem. Para ele, só o Evangelho de Lucas e algumas cartas de Paulo deveriam ser considerados. Já Justino, nascido em 100, propôs outra solução: não jogar fora, mas fazer uma leitura espiritual, simbólica. Assim, o Antigo Testamento seria interpretado aplicando seus símbolos à fé cristã. A Igreja rejeitou a proposta de Marcião e adotou a de Justino.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 115, confirma essa tradição: há dois sentidos da Escritura, o literal e o espiritual. O sentido espiritual é justamente essa releitura que aplica os textos antigos à fé cristã, como João aplicou à Jesus o que antes se dizia da Sabedoria, ou como Mateus aplicou a João Batista o texto de Isaías. O sentido literal, por sua vez, busca compreender o contexto histórico em que o texto foi escrito.

Assim, a Igreja reconhece ambos os sentidos, mas sempre direciona a leitura para Cristo, que é o centro da interpretação das Escrituras.

Existem duas formas de se ler a Bíblia. A primeira é a leitura literal, que busca o conteúdo histórico, o sentido original do texto, aquilo que estava acontecendo na época em que foi escrito. A segunda é a leitura espiritual ou simbólica, que aplica o texto à fé cristã de hoje, dando novos significados. Muito importante saber disso!

Se olharmos os exemplos já citados, veremos que o sentido literal falava da Torá, do retorno da Babilônia ou da missão de Isaías. Esse é o sentido histórico. Já o Novo Testamento faz uma leitura espiritual: o que era a Torá passa a ser Jesus; o retorno da Babilônia se torna João Batista preparando o caminho; a missão de Isaías é aplicada à missão de Cristo.

Assim, o Novo Testamento lê o Antigo de forma espiritual e simbólica, não literal. Ele dá novos símbolos e significados ao que antes era aplicado a realidades transitórias. O Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 121 e 122, afirma que o Antigo Testamento é parte indispensável da Sagrada Escritura. Reconhece que contém elementos imperfeitos e transitórios, mas que devem ser lidos e compreendidos à luz de Cristo.

O Novo Testamento atualiza o Antigo, trazendo seus símbolos e palavras para aplicá-los a Jesus, que é perfeito e eterno. Por isso, o centro da Bíblia para os cristãos é o Evangelho, e tudo deve se referir a Cristo.

A diferença entre teologia e homilia se torna clara nesse ponto. A teologia busca o sentido literal, histórico, procurando entender o contexto em que os textos foram escritos. Já a homilia e a catequese trabalham com o sentido espiritual, aplicando os símbolos à fé e à vida da comunidade. É por isso que quem começa a estudar teologia muitas vezes se surpreende: estava acostumado a ouvir os textos em homilias e catequeses, que fazem uma leitura simbólica, mas na teologia encontra a leitura histórica, mais detalhada e profunda.

Na missa, o padre tem pouco tempo (8 minutos é o ideal) e precisa dar uma mensagem objetiva e de animação para a comunidade. Por isso, a homilia não é estudo bíblico nem curso de teologia. Ela aplica o texto de forma espiritual e simbólica, enquanto a teologia se dedica a compreender o sentido literal e histórico.

O Novo Testamento não é simplesmente ideias embasadas no Antigo, mas sim o ensinamento de Cristo. Muitas vezes, Jesus corrige o Antigo Testamento com expressões como “Eu, porém, vos digo”, mostrando que a revelação plena de Deus está no Evangelho. O Antigo Testamento é fruto da experiência de fé de homens e mulheres ao longo da história, mas contém elementos imperfeitos e transitórios. Quem revela Deus de forma total e definitiva é Jesus.

Por isso, não aprendemos quem Deus é plenamente com Abraão, Moisés, Davi ou Jacó, mas com Cristo. O curso de teologia busca compreender o sentido literal e histórico dos textos, enquanto a homilia e a catequese trabalham com o sentido espiritual e simbólico.

Um exemplo é Gênesis 1,26: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. No sentido literal, referia-se ao rei Zorobabel, considerado imagem de Deus na terra. Hoje, no sentido espiritual, entendemos que todos os seres humanos são imagem e semelhança de Deus.

Outro exemplo é Gênesis 2, sobre a criação da mulher a partir da costela do homem. Literalmente, era uma crítica que rebaixava as mulheres, mostrando seu lugar ao lado dos homens no templo. Espiritualmente, Santo Tomás de Aquino (1225- 1274) interpretou que a mulher foi criada do lado para ser igual ao homem, nem superior nem inferior.

A história de Caim e Abel (Gênesis 4)  também mostra essa diferença. Literalmente, refletia uma disputa entre camponeses, que ofereciam produtos da terra, e sacerdotes, que exigiam sacrifícios de animais. Espiritualmente, passou a ser lida como um ensinamento sobre a importância de oferecer a Deus um coração puro.

Assim, o curso de teologia mergulha no sentido literal e histórico, enquanto a catequese e a homilia aplicam o sentido espiritual. O Novo Testamento lê o Antigo sempre de forma espiritual, aplicando seus símbolos a Cristo. É por isso que, ao estudar teologia, muitos se surpreendem: estavam acostumados apenas à leitura espiritual, mas descobrem que há também um sentido histórico que precisa ser compreendido.

A Igreja, ao longo da história, assumiu essa dupla leitura: literal e espiritual. O magistério garante que a interpretação espiritual não se torne arbitrária, mas esteja sempre em sintonia com a fé cristã e centrada em Jesus.

Na Igreja Católica, a leitura espiritual da Bíblia não é feita de forma solta ou individual. Ela precisa estar em sintonia com o ensino da Igreja, que se expressa através do Papa e dos bispos. Isso significa que não estamos livres para interpretar os textos de qualquer maneira; seguimos a orientação do magistério, que dá a interpretação final e o sentido correto.

Essa é uma diferença importante em relação às igrejas protestantes. Como não têm o Papa como centro de unidade, cada comunidade pode dar o sentido espiritual que considera mais adequado, o que resulta em muitas interpretações diferentes. Já na Igreja Católica, o catecismo e o magistério garantem a unidade da leitura.

O melhor caminho para compreender a Bíblia é conhecer primeiro o sentido literal, ou seja, o contexto histórico em que o texto foi escrito, e só depois aplicar o sentido espiritual. Esse é o método histórico-crítico recomendado pela Igreja: primeiro entender o que o texto significava na época, para então tirar uma mensagem válida para hoje.

Assim, o Antigo Testamento foi assumido pela Igreja não apenas como história, mas também como fonte de leitura espiritual que ilumina o Novo Testamento e aponta para Cristo. Por exemplo, Gênesis 1, “faça-se a luz”, no sentido literal falava da reconstrução de Jerusalém após a destruição babilônica. Hoje, espiritualmente, lemos como relato da criação do mundo.

O Tanakh, usado pelos judeus, corresponde ao Antigo Testamento, dividido em três partes: Torá (os cinco primeiros livros), Profetas e Escritos. A Bíblia Católica inclui 46 livros no Antigo Testamento, enquanto o Tanakh e a Bíblia protestante têm 39, pois sete livros foram retirados.

Quando o Novo Testamento afirma “para que se cumprisse o que estava escrito”, significa que em Cristo tudo se realiza plenamente. Jesus assume em si as figuras do Antigo Testamento — Isaías, Davi, Moisés, Abraão — e mostra que Ele é a revelação total de Deus.

O objetivo do estudo teológico não é apenas entender o Antigo Testamento, mas, por meio dele, compreender melhor quem é Jesus e a novidade que Ele trouxe. A leitura histórica nos ajuda a ver o contexto original, e a leitura espiritual nos mostra como tudo encontra sentido em Cristo. Assim, a mensagem central é que toda a Escritura deve ser lida em direção a Ele, que é a revelação plena de Deus.

 

Deixe seus comentários no grupo.

Gostaria de saber: o que mais chamou sua atenção neste texto e por que isso tocou você?